Então, Brilha em 2025

Crônica | Beagá, em estado de confete

O belo raro momento em que a cidade se lembra de si.

Raphaell Zanotti

Hi, Guys!

Há cidades que dormem de terno e acordam de fantasia.
Belo Horizonte é assim: discreta, contida, quase tímida durante o ano inteiro, até que fevereiro chega como um sopro de serpentina e a transforma numa outra coisa. Não exatamente numa festa. Mas num estado de espírito.

No Carnaval de rua, Beagá não se disfarça: ela se revela.

De repente, a cidade que vive de horários, reuniões e pressa se permite tropeçar no próprio ritmo. O asfalto vira palco, a praça vira abraço, o desconhecido vira companhia de refrão. Há corpos, batuques e uma alegria que não pede licença. Só acontece.

No Carnaval, somos apenas gente. Gente suada, colorida, desafinada, feliz. Gente que dança sem coreografia, que canta sem técnica, que ri sem propósito. E, pela primeira vez em muito tempo, isso basta.

Os blocos surgem como pequenos manifestos de ternura urbana. Cada um com seu tema, sua estética, sua micro-utopia ambulante. Há os que celebram a diversidade, os que brincam com a política, os que simplesmente cantam o amor, a rua, o corpo e o instante. Nenhum pede performance. Todos convidam presença.

E talvez seja isso que mais encanta: o Carnaval de BH não exige perfeição. Ele pede entrega. Não quer protagonistas, quer coro. Não quer espetáculo, quer encontro.

Há algo profundamente elegante nessa despretensão coletiva. Um luxo que não se compra: o de pertencer por algumas horas a algo maior que o próprio ego.

Caminhando entre confetes, glitter e risadas que ecoam pelos prédios, percebo que a cidade se reconcilia consigo mesma. A mesma Belo Horizonte que, no cotidiano, se esconde em rotinas e silêncios, no Carnaval se olha no espelho da rua e diz: “é isso que eu sou também”.

E que beleza há nisso.

No Carnaval de rua de Belo Horizonte, famílias, crianças e brincantes transformam a cidade em quintal coletivo: mãos pequenas cheias de confete, passos atentos de quem cuida e risos que costuram cada esquina. Ali, entre um tambor e um colo, a cidade reaprende a ser gentil consigo mesma, lembrando que celebrar também é um ato de cuidado. Não é só festa, é encontro, afeto e a rua reaprendendo a ser lugar de brincar junto.

E entre um bloco e outro, a gente observa: talvez seja por isso que tanta gente se encontra nesse caos organizado. Porque, em meio ao batuque, ninguém precisa provar nada. Somos todos versões provisórias, alegres, imperfeitas e, por isso mesmo, humanas.

Então, se a cidade lhe convidar, aceite.

Vista algo que não combine com nada.
Cante mesmo sem saber a letra.
Dance mesmo sem ritmo.
Abrace mesmo sem nome.

Permita-se ser só presença.

Porque quando Belo Horizonte vira Carnaval, ela não oferece apenas festa. Ela oferece um raro lembrete: a vida presta e precisa ser profundamente significativa.

E, entre um passo torto e um refrão coletivo, a gente entende sem teoria, sem discurso que há uma beleza imensa em ser, por algumas horas, apenas… gente em estado de confete.

Afinal, Beagá é quem?